Um guardachuva tecno-geográfico
O Grupo de Estudos Guardachuva surgiu no final de 2005 por iniciativa de então graduandos de geografia na USP. A idéia seria desenvolver pesquisas sobre geografia, tecnologia, software livre e ciberespaço, temas que são geralmente deixados de lado por grande parte dos estudantes e docentes da área.
A geografia, no contexto do ciberespaço, é confrontada por curvaturas inesperadas e encurtamentos de distâncias. Certamente que a virtualidade dos ambientes digitais está fundada em redes físicas, em fluxos econômicos e configurações tecnológicas, mas no virtual as noções clássicas de território, de fronteira e de espaço se encontram pervertidas: fluxos podem cruzar o planeta em instantes e fábricas podem estar em qualquer lugar.
É nesse novo contexto que o Grupo Guardachuva tenta situar seus estudos para entender o novo ordenamento do espaço e suas consequências na sociedade. Tendo sua infra-estrutura de servidores própria, o grupo pode partir para uma abordagem experimental.
Como haviam muitas idéias e linhas de desenvolvimento distintas, o nome de "guarda-chuva" foi escolhido para abrigar diversas propostas em torno de uma vontade comum de estudar a aplicação da geografia nos ambientes virtuais ao mesmo tempo de identificar o quanto os ambientes virtuais podem auxiliar na prática da geografia.
Inicialmente, conseguimos em parceria com a Associação de Geógrafos do Brasil de São Paulo (AGB-SP) um espaço - um servidor - no qual poderíamos iniciar tais pesquisas. Como troca, garantiríamos a infra-estrutura e o funcionamento de um sítio.
O primeiro passo da pesquisa seria de caráter mais prático que teórico. Em primeiro lugar, necessitávamos instalar um ambiente adequado para abrigar banco de dados e servidor de arquivos web.
Escolhemos para sistema operacional uma distribuição de GNU/Linux chamada Gentoo[1], MySql para banco de dados[2] e Apache[3] com PHP[4] para servir arquivos web.
Com esse alicerce técnico, poderíamos iniciar uma caminhada para poder abrigar sítios dinâmicos, páginas estáticas e páginas wiki[5] tanto para serem utilizadas para os grupos de estudos quanto para suprir a carência de sistemas de comunicação e bancos de dados para organizações de geógrafos/as.
Nas próximas seções descrevemos, em linhas gerais, os principais estudos e atividades realizadas no Guardachuva.
Hospedagem para grupos afins
Desde o princípio, a hospedagem esteve no centro de nossa atuação. A apropriação das novas tecnologias da informação pelos grupos hospedados seria em si parte do processo de pesquisa e da experiência do Grupo Guardachuva. Para tal, foram instalados dois programas para sítios, cada um deles com uma característica peculiar.
O primeiro foi o Drupal[6]. Drupal é um software gerenciador de conteúdo, que é extremamente modular e serve para criação de sítios web. Com essa ferramenta é possível publicar conteúdo multimídia, gerenciar conteúdo de forma extremamente simples e alcançar resultados poderosos. É um software livre com desenvolvimento aberto extremamente popular e atualmente conta com uma comunidade extensa -- mais de 10.000 integrantes -- a qual também integramos, seja na tradução ou no desenvolvimento de módulos e correções.
O outro software utilizado é o PmWiki[7]. É um software para manutenção de wikis relativamente simples, que não requer muitos recursos de hardware e de manutenção, mas que provê todas as funcionalidades básicas de um sistema de páginas wiki.
Dentre os grupos hospedados, destacam-se:
* Sítio da AGB-SP - http://www.agbsaopaulo.org.br.
* Portal dos Estudantes de Geografia - http://geografia.org.br.
Software Livre e licenças públicas
Todos os softwares que utilizamos possuem licenças de software livre. Isso quer dizer que qualquer pessoa pode baixá-los da internet, utilizá-los para o fim que quiser, ler seus códigos, estudá-los, realizar alterações e redistribuí-los. Existem variações na licença de um software para outro, mas damos destaque para a licença pública geral - GPL. Segue uma definição retirada da Wikipedia[8]:
Em termos gerais, a GPL baseia-se em 4 liberdades:
1. A liberdade de executar o programa, para qualquer propósito (liberdade nº 0).
2. A liberdade de estudar como o programa funciona e adaptá-lo para as suas necessidades (liberdade nº 1). O acesso ao código-fonte é um pré-requisito para esta liberdade.
3. A liberdade de redistribuir cópias de modo que você possa ajudar ao seu próximo (liberdade nº 2).
4. A liberdade de aperfeiçoar o programa, e liberar os seus aperfeiçoamentos, de modo que toda a comunidade se beneficie deles (liberdade nº 3). O acesso ao código-fonte é um pré-requisito para esta liberdade.
E nesse momento, acabamos de fazer mais um uso de uma licença livre. É que todo o conteúdo da Wikipédia também é oferecido livremente, de acordo com uma licença de uso igualmente livre, mas para conteúdo textual[9].
Todo esse esforço tem grande apelo na idéia de conhecimento livre, frente ao conhecimento privado e patenteado, para que este possa ser utilizado por quem quiser sob a finalidade que quiser. O detalhe é que a autoria e a referência a quem produziu o conteúdo persiste. Nesse sentido, o software livre combate a raiz da pirataria, pois altera o paradigma de propriedade.
Acreditamos que os ideais de conhecimento livre fazem muito sentido também por fortalecer a idéia de comunidade e de livre acesso. No caso das universidades pública, então, isto é até mais evidente: se a universidade recebe dinheiro público, isto é, um investimento da sociedade, então sua produção científica deve ser disponibilizada, distribuída e difundida igualitariamente a toda sociedade e com garantias de que esse conhecimento livre assim permanecerá já que, em geral, com licenças livres todas as liberdades atribuídas estão condicionadas à transmissão dessas mesmas liberdades.
Bibliotecas
O servidor do projeto Guardachuva abriga um banco de dados da biblioteca da AGB-SP, que possui um dos maiores temáticos na área da geografia no país. O projeto atualmente está na fase de avaliação das soluções disponíveis em software livre que atendam às necessidades de uma biblioteca universitária com milhares de volumes.
Mapas livres
Durante quase um ano, funcionou um projeto denominado "mapas livres", que igualmente se utilizava somente de software livre. A idéia seria um portal sobre cartografia digital em software livre, algo até então inexistente. Além de produzir e abrigar documentação sobre softwares livres da área, o projeto tinha como objetivo criar uma base de dados pública para que mapas fossem licenciados sob diversas licenças consideradas livres, de acordo com a escolha do ou da autora.
A idéia surgiu frente a uma situação em que o mercado de software de cartografia é extremamente monopolizado e quase todo em torno de empresas privadas. A própria produção de mapas e cartogramas comuns na pesquisa científica em geografia está assim sujeita e dependente de empresas e conhecimento privado. Estando em uma universidade pública, consideramos de suma importância prover meios públicos e universais para o acesso a ferramentas de qualidade para mapeamento, rompendo o ciclo em que as instituições públicas servem como treinadoras de mão de obra para empresas privadas num processo de apropriação indireta de recursos públicos.
Por isso a atuação em duas frentes:
* Uso e difusão de software livre.
* Produção e distribuição de mapas.
A situação ideal seria que o projeto Mapas Livres se constituísse como referência para estudantes e docentes publicarem seus mapas e arquivos públicos, que seriam disponibilizados tanto em formato shape[10] como em SQL (postgis), a ser gerado automaticamente pelo sistema. A constituição de um servidor WMS[11] também iniciada, para que se pudesse acessar os dados armazenados nesse servidor a partir de clientes.
Infelizmente, o projeto foi posto em segundo plano e não seguiu adiante. No entanto, os arquivos e as idéias seguem guardados e prontos para uma reativação. Se você se interessa pelo projeto, escreva-nos.
Regulação da Internet
Tal como o espaço físico e seu ordenamento se encontram fortemente regulados, tanto por marcos legais quanto pelo exercimento da violência e do arbítrio, as redes de dados mundiais hoje passam por uma etapa de regulamentação em muitos países.
Se alguns países como a Suécia -- ponto nevrálgico responsável por grande parte da estrutura de transmissão de dados da Europa Ocidental para o Oriente -- e os Estadus Unidos -- o principal "centro" da internet -- tem adotado a política de vigilância e monitoramento irrestrito das comunicações de dados (não só internet)[12], outros tem construído marcos legais como Diretiva da Retenção de Dados da União Européia[13], que consiste na possibilidade do Estado indentificar as partes envolvidas nas comunicações (chamadas telefônicas, envio de mensagens, etc) realizadas num dado período de tempo.
No Brasil, o equivalente jurídico assumiu a forma do chamado Projeto de Lei Azeredo, que encampa o lobby de diversas empresas de tecnologia e cria tipos criminais no uso da Internet antes mesmo que os direitos do ciberespaço brasileiro sejam estabelecidos[14].
Por outro lado, países como a China e a Austrália tem adotado a filtragem e o bloqueio de conteúdo da internet[15].
Tais políticas não evidenciam apenas o caráter também geográfico das redes de dados -- tipicamente analisadas como infra-estrutura descolada do mundo real -- como também mostram a necessidade de levar essa discussão para a academia e para a sociedade em geral. Assim, o Grupo de Estudos Guardachuva tem estudado o recrudescimento da repressão ao direito à comunicação e à liberdade de expressão ao mesmo tempo que estuda os conflitos que daí emergem.
Referências
* [1] http://www.gentoo.org (acessado em 26/03/2009).
* [2] http://www.mysql.com (acessado em 26/03/2009).
* [3] http://www.apache.org (acessado em 26/03/2009).
* [4] http://www.php.net - O php é uma linguagem de programação própria para servidores web e para páginas dinâmicas.
* [5] Wiki é um tipo de software que permite a edição colaborativa, visto que qualquer pessoa (autorizada) pode publicar e editar conteúdos com facilidade. O exemplo mais conhecido de wiki é a Wikipédia - http://pt.wikipedia.org (acessado em 26/03/2009)..
* [6] http://drupal.org (acessado em 26/03/2009).
* [7] http://pmwiki.org (acessado em 26/03/2009).
* [8] http://pt.wikipedia.org/wiki/GNU_General_Public_License
* [9] http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:Tradu%C3%A7%C3%A3o_n%C3%A3o-ofici... (acessado em 26/03/2009).
* [10] O formato shape, apesar de ser proprietário, tornou-se língua geral para os programas de mapeamento, sendo de grande compatibilidade. Sua propriedade é da ESRI, uma gigante do setor.
* [11] WMS - Web Map Service - é um serviço de mapas via web. Através da configuração de um servidor WMS, que possua mapas, é possível prover mapas para programas clientes, que se conectam nele mediante um protocolo estabelecido.
* [12] Para o caso sueco, vide http://www.edri.org/edrigram/number6.21/fra-surveillance-society. Para o caso estado-unidense veja, por exemplo, http://en.wikipedia.org/wiki/NSA_warrantless_surveillance_controversy (links acessados em 26/03/2009).
* [13] Sobre a Diretiva da Retenção de Dados, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Data_Retention_Directive. Outro documento importante é a Convenção sobre o Cibercrime ( http://en.wikipedia.org/wiki/Cybercrime_Convention), sobre a qual há uma pressão para que o Brasil se torne um signatário, vide https://www.gpopai.usp.br/boletim/article34.html (links acessados em 26/03/2009).
* [14] Para mais informações sobre o Projeto de Lei Azeredo, veja por exemplo:
o http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=500IPB006 (acessado em 26/03/2009).
o http://www.midiaindependente.org/pt/blue//2008/10/431647.shtml (acessado em 26/03/2009).
o http://www.midiaindependente.org/pt/blue//2008/08/425724.shtml (acessado em 26/03/2009).
o http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2007/05/382953.shtml (acessado em 26/03/2009).
o Blog de Sérgio Amadeu: http://samadeu.blogspot.com (acessado em 26/03/2009).
* [15] Ver, por exemplo:
o http://en.wikipedia.org/wiki/Great_firewall (acessado em 26/03/2009).
o http://blog.wired.com/27bstroke6/2009/03/wikileaks-expos.html (acessado em 26/03/2009).
o http://www.technologyreview.com/blog/arxiv/23184/ (acessado em 26/03/2009).
